Não deixe o trabalho tomar conta da sua vida

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Excelente artigo publicado na revista Claudia (out./2012) de autoria de Cynthia de Almeida, jornalista e estudiosa do comportamento feminino. Acompanhe:

Inspiração – Carreira

Flexibilidade de horários e liberdade para escolher onde e como trabalhar são os novos mantras dos planos de carreira. De acordo com a pesquisa American Community Survey, entre os anos de 2005 e 2009, nos Estados Unidos, cresceu 61% o número de pessoas que trabalham fora do escritório (em casa ou onde quiserem, usando a internet). Em 2016, um em cada cinco americanos atuará fora do ambiente convencional. Nesse caso, estamos falando de 63 milhões de pessoas. E de uma revolução em nossa vida.

As mulheres, cuja rotina exige uma dose extra de conciliação de tarefas, se entusiasmam particularmente com um mundo em que o trabalho à distância as poupe dos deslocamentos, do trânsito e do tempo perdido em reuniões excessivas no escritório, mantendo-as mais próximas de casa e dos filhos. Sonhamos tanto com essa liberdade que nos esquecemos de nos preparar para ela e evitar suas armadilhas. Se sua atividade permite o trabalho à distância (nos Estados Unidos avalia-se que 47% das profissões estejam nessa categoria), é vital dominar, antes de mais nada, aquele que é mais implacável do que qualquer relógio de ponto, chefe ou patrão: seu tempo.

Desde que a tecnologia digital se instalou em nosso cotidiano, eliminando distâncias na mesma medida em que parece ter multiplicado as horas, desenvolvemos, como afirma a socióloga e estudiosa do tema Dora Faggin, “uma relação esquizofrênica com o tempo”. Primeiro, explica a especialista, fazemos muitas coisas simultaneamente. Resultado: as tarefas começam, mas nunca terminam, e se acumulam. Depois, a ilusão de que tudo é instantâneo e que, assim que apertamos o “enter”, as coisas acontecem imediatamente cancelou de nossa rotina o tempo dedicado a processos fundamentais. Nós não somos mais capazes de ficar um minuto sem fazer nada. E isso é um risco quando trabalhamos à distância.

Não importa se temos um home office permanente ou se simplesmente costumamos “levar trabalho pra casa”, é essencial preservar os processos. Quem trabalha em casa pode escolher seus horários. Afinal, tem gente que rende melhor à noite, outras pessoas acham ótimo acordar às 5 da manhã. Não importa, é preciso organizar e restringir seu turno. Não é porque você não está em um ambiente convencional que vai permanecer em “estado de trabalho” 24 horas. Defina quanto e quando você quer e pode. A geração sem fio acredita que o carro, a sala de espera do consultório e o saguão do aeroporto são os novos escritórios. Devem ser, mas para nossa comodidade, não para a voracidade insalubre do moto-contínuo.

Preserve, finalmente, aqueles rituais que preparam nosso corpo e mente para produzir bem. Acordar e se jogar na tela do computador ou do tablet (ou do smartphone) sem nem tirar o pijama – e, muitas vezes, quando ainda se está na cama – nos rouba o espaço e a alegria de pensar. Conserve e usufrua o processo de se alimentar, se vestir, ir para um local confortável com boa iluminação e a cadeira certa, parar para tomar um cafezinho, caminhar, respirar. Essa liturgia do trabalho, mais do que disciplina, é inspiração. Estamos diante de um novo mundo, de múltiplas conexões e poucas barreiras. Precisamos ser protagonistas dessa revolução, em vez de vítimas de uma mudança de hábitos.

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